Psicanálise e jogos de regras: notas teórico-clínicas à luz dos trabalhos da latência

Mariana Inés Garbarino

Resumo


Presentes desde a antiguidade na mitologia e na arte, os jogos regrados são uma criação do homo-ludens e acompanham a filogênese há, pelo menos, 5.000 anos. Embora sejam utilizados na clínica com crianças e reconhecidos como elementos típicos do período da latência, a literatura psicanalítica se mostra pouco provida de pesquisas sobre jogos em comparação com os estudos do brincar e das produções verbais e gráficas. Assim, com base em autores contemporâneos, especialmente francófonos, o presente artigo analisa a função do jogo no período de latência e suas possíveis contribuições na clínica. Realizando uma releitura de construtos clássicos do desenvolvimento psicossexual e da metapsicologia freudiana à luz das possibilidades clínicas do jogo, o artigo foi organizado em três pilares: (1) a história e os símbolos dos jogos de regras; (2) os trabalhos da latência, o prazer de pensar e a dimensão sublimatória e metapsicológica do jogo; (3) as especificidades da sua abordagem clínica. Discute-se, ademais, o papel do jogo na reativação da conflitiva edípica e sua fecundidade, considerando a prevalência da queixa escolar na demanda de atendimento durante a latência.

Palavras-chave


Latência; jogos; clínica psicanalítica; desenvolvimento psicossexual.

Texto completo:

PDF

Referências


Arbisio, C. (2007). L’enfant de la période de latence. Paris: Dunod. (Original publicado em 1997)

Aulagnier, P. (1986). Un intérprete en busca de sentido. México: Siglo XXI.

Aulagnier, P. (2001). La violencia de la interpretación. Buenos Aires: Amorrortu. (Original publicado em 1975)

Bailly, R. (2001). Le jeu dans l’œuvre de Winnicott. Enfances & Psy, 3/2001 (no15), 41-45.

Bellinson, J. (2013). Board games in psychodynamic psychotherapy. Child Adolesc Psychiatric Clin, 22, 283–293.

Caillois, R. (1986). Los juegos y los hombres. La máscara y el vértigo. México: FCE

David-Ménard, M. (2015). Como ler Além do princípio do prazer? Reverso, 37(69), 99-112. Recuperado em 15 abr. 2018 de .

Dell`Agli B. A., & Brenelli, R. P. (2009). Análise dos aspectos afetivos em atividades lúdicas e escolares. In Macedo, L. (Org.), Jogos, psicologia e educação: teoria e pesquisas, p. 117-129. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Denis, P. (2011). De l’âge bête, La période de latence. Paris: Presses Universitaires de France.

Doyen, C., Contejeana, Y., Rislera, V., Aschb, M., Amadoc, I., Launayd, C., De Bois Redona, P., Burnoufa, I., & Kaye, K. (2015). Thérapie par remédiation cognitive chez les enfants: données de la littérature et application clinique dans un service de psychiatrie de l’enfant et de l’adolescent. Archives de Pédiatrie, 22, 418-426. Recuperado em 18 jun. 2018 de .

Freud, S. (1996). Três ensaios sobre a sexualidade. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. VII. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1905)

Freud, S. (1996). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1911)

Freud, S. (1996) Sobre o início do tratamento. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1913)

Freud, S. (1996). Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise II). In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1914)

Freud, S. (1996). (Conferências de introdução à psicanálise). In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 15. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1916)

Freud, S. (1996). Além do princípio do prazer. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 18. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1920)

Freud, S. (1996). O ego e o id. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1923)

Freud, S. (1996). A dissolução do Complexo de Édipo. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 19. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1924)

Freud, S. (1996). Esboço de psicanálise. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 23. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1938)

Garbarino, M. I. (2017). Construção do prazer de pensar e desenvolvimento: um estudo teórico-clínico com crianças em dificuldade escolar. (Tese Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo). doi 10.11606/T.47.2017.tde-24072017-181914.

Golse B. (2010). Les destins du développement chez l’enfant. Toulouse: ERES.

Green, A. (1996). La metapsicología revisitada. Buenos Aires: Eudeba.

Gutton P. (1973/2009). Le jeu chez l’enfant. Paris: Larousse. (Original publicado em 1973)

Houdé, O. (2014). Le raisonnement. Coleção Que sais-je? Paris: Puf.

Houdé, O. (2015). Génération Z: le cerveau des enfants du numérique. Sciences et Avenir.. Recuperado em 20 abr. 2017 de .

Huizinga, J. (1938/2000). Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva. (Original publicado em 1973)

Laplanche, J., & Pontalis, J. B. (2009). Diccionario de Psicoanálisis. Buenos Aires: Paidós.

Le Corre, V. (2015). De quelques aspects de l’expérience vidéo-ludique. Savoirs et clinique,18(1), 43-52. Recuperado em 10 dez. 2018 de:

Lenoble, É. (2010). La langue à l’épreuve du scolaire: que nous apprennent les enfants en mal de lecture et d’écriture? Enfances & Psy, 47(2), 128-140. Recuperado em 6 jul. 2017 de

Levin, E. (2012). Angustia, diagnósticos e infancia. ¿dónde está el sujeto? Prâksis Revista do ICHLA, Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes, 2, 9-18. Recuperado em 7 out. 2017 de: .

Lhôte, J. M. (1995). Histoire des jeux de société: géométries du désir. Paris: Flammarion.

Lhôte, J. M. (2010). Le symbolisme des jeux. Paris: Éd. Berg International.

Macedo, L. (1995). Os jogos e sua importância na escola. Cadernos de Pesquisa, 93, 5-10. Recuperado em 15 mar. 2015 de .

Macedo, L. (2009). Jogos, psicologia e educação: teoria e pesquisas. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Macedo, L.; Petty, A. L., & Passos, N. C. (2010). 4 Cores, Senha e Dominó: oficinas de jogos em uma perspectiva construtivista e psicopedagógica. São Paulo: Casa do Psicólogo. (Original publicado em 1997)

Mijolla-Mellor, S. (1992/2006). Le plaisir de pensée (Une lecture de l’ouvre de Piera Aulagnier). Paris: PUF.

Mijolla-Mellor, S. (2005). La sublimation. Que sais-je?. Paris: Puf.

Mijolla-Mellor, S. (2012). (Org.). Traité sur la sublimation. Paris: PUF.

Oder, A. (2008). The use of board games in child psychotherapy. Journal of Child Psychotherapy, 3(34), 364-383. Recuperado em 4 jul. 2015 de .

Oliveira, H. M., & Fux, J. (2014). Considerações psicanalíticas sobre os jogos de esconder: do puti ao esconde-esconde. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, 17(2), 255-269. Recuperado em 8 set. 2018 de .

Piaget, J. (1994). O Juízo moral na criança. São Paulo: Ed. Summus. (Original publicado em 1932)

Piaget, J. (1975). A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar. (Original publicado em 1945)

Queiroz, S. S., Dias, L. P., Chagas, J. D., & Nepomoceno, P. S. (2011). Erros e equilibração em psicologia genética. Psicologia Escolar e Educacional, 15(2), 263-271. Recuperado em 9 out. 2018 de .

Ramos, D. K., Rocha, N. L., Rodrigues, K. J. R., & Roisenberg, B. B. (2017). O uso de jogos cognitivos no contexto escolar: contribuições às funções executivas. Psicologia Escolar e Educacional, 21(2), 265-275. Recuperado em 27 fev. 2018 de .

Schejtman, R. C. (1999). Los juegos del niño en la actualidad. Su incidencia en la estructuración del psiquismo. Revista Topia: Psicoanálisis, Sociedad y Cultura, 8(24), 33-35.

Schlemenson, S. (2009). La clínica en el tratamiento psicopedagógico. Buenos Aires: Editorial Paidós.

Solinski, B. (2013). Jean-Marie Lhôte, histoire du hasard en occident. Questions de communication. 24/2013, 473-474. Recuperado em 01 jun. 2015 de .

Souza, A. S. L. (2014). Re-visitando a latência: reflexões teórico-clínicas sobre os caminhos da sexualidade. Psicologia USP, 25(2), 155-161. Recuperado em 20 jun. 2017 de .

Steibel D., Hallberg A. E., Sanchotene B., Campezatto P. V. M., Silva M. R., & Nunes M. L. T. (2011). A latência na atualidade: considerações sobre crianças encaminhadas para psicoterapia. Aletheia, 35-36, 51-68. Recuperado em 4 mai. 2018 de .

Taquet, P. (2015). Addiction au jeu vidéo: Processus cognitifs, émotionnels et comportementaux impliqués dans son émergence, son maintien et sa prise en charge. Tese de doutorado, Université Charles de Gaulle – Lille III, Lille, França.

Urribarri, R. (1999). Descorriendo el velo sobre el trabajo de la latencia. Revista Latino-Americana de Psicanálise FEPAL, 3(1), 257-292. Recuperado em 18 out. 2018 de .

Urribarri, R. (2012). Estruturação psíquica e subjetivação da criança em idade escolar. São Paulo: Escuta.

Winnicott, D. (1972). Realidad y Juego. Barcelona: Ed. Gedisa.

Winnicott, D. (1993). El análisis del niño en el período de latencia. In D. Winnicott [Autor], Los procesos de maduración y el ambiente facilitador (p. 149-160). Buenos Aires: Paidós. (Original publicado em 1963)

Zulueta, A. L. (2010). Logros y fracasos de la latencia como parámetros del diagnóstico clínico. Psicopatol. salud mental, 16, 21-28. Recuperado em 19 jun. 2017 de .


Apontamentos

  • Não há apontamentos.