Notas sobre o mal-estar na cibercultura em tempos de hiperaceleração digital

Samuel Alcântara, José Clerton de Oliveira Martins, Francisco Welligton de Sousa Barbosa Junior, Maria Celina Peixoto Lima

Resumo


Toda transformação tecnológica nos convida a refletir sobre nossas formas de compreensão dos fenômenos sociais e seus impactos nos sujeitos. Hoje, temos à nossa disposição inúmeras máquinas que respondem a necessidades humanas e, mesmo assim, com as aparentes facilidades proporcionadas pela cibercultura, parece que continuamos em estado de alerta, esperando pela próxima informação e notícia, esperando sempre pela próxima urgência que surgirá em nossa tela. Nossa experiência existencial do mal-estar frente ao processo cibercultural ganha novos contornos. A hiperconexão imersiva no digital parece produzir um sentimento de instantaneidade que nos impede a reflexão e a experiência de ócio. Questões sobre a compreensão acerca dos efeitos subjetivos que tal forma de vida acarreta à humanidade começam a despertar o interesse de vários campos do conhecimento. Portanto, tomando a noção psicanalítica de mal-estar, este estudo, de natureza teórico-bibliográfica, objetiva proporcionar compreensões sobre o fenômeno da hiperaceleração digital, promovendo um diálogo entre a psicanálise e os estudos sobre a contemporaneidade e o ócio. Nesse contexto, a psicanálise, ao se colocar como um espaço de experiência que produz efeitos de significação, permitiria ao sujeito ocupar uma posição para além do lugar que lhe cabe em uma sociedade hiperacelerada, parecendo, dessa maneira, fornecer algumas pistas para se pensar sobre a experiência de ócio na cibercultura e sua respectiva importância.

Palavras-chave


Psicanálise; cibercultura; digital; ócio.

Texto completo:

PDF

Referências


Adorno, T., & Horkheimer, M. (1985). Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar.

Alexandre, L. (2018). A morte da morte. Barueri: Manole.

Alves, M. A. (2017). A cibercultura e as transformações em nossas maneiras de ser pensar e agir. In Lima, N. L., Stengel, M., Nobre, M. R., & Dias, V. C. (Orgs.), Juventude e cultura digital (p. 169-180). Belo Horizonte: Artesã.

Carr, N. (2011). A geração superficial: O que a internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir.

Castells, M. (2003). A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar.

Castells, M. (2016). A sociedade em rede (19ª ed.). São Paulo: Paz e Terra.

Danziato, L. J. (2010). O dispositivo de gozo na sociedade do controle. Psicologia & Sociedade, 22(3), 430-437.

Dunker, C. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.

Dunker, C. (2017). Intoxicação digital infantil. In Baptista, A., & Jerusalinsky, J. (Orgs.), Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais (p. 117-145). Salvador: Álgama.

Dunker, C. (2018). A reflexão do psicanalista Christian Dunker sobre como a interação nas redes deforma a noção do 'eu'. Fonte: Huffpost Brasil: Recuperado em .

Dutra, A. L. (Diretor). (2015). Quanto tempo o tempo tem [Filme Cinematográfico]. Netflix.

Forbes, J. (2011). Psicanálise do homem desbussolado. Revista Psique Ciência & Vida, 53, 13-14.

Forbes, J. (2012). Inconsciente e responsabilidade: psicanálise do século XXI. Barueri: Manole.

Freud, S. (2014). O futuro de uma ilusão. In Freud, S. [Autor], Obras completas, v. 17: inibição. sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1927)

Freud, S. (1930/2010). O mal-estar na civilização (1930). In Freud, S. [Autor], Obras completas, v. 18: o mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1930)

Han, B.-C. (2016). No enxame. Lisboa: Relógio D'Água.

Han, B.-C. (2017). Sociedade da transparência. Petrópolis: Editora Vozes.

Han, B.-C. (2017). Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.

Hilton, A. M. (1966). The evolving society: first annual conference onn the cybercultural revolution--cybernetics and automation. New York: Institute of Cybercultural Research.

Kurzweil, R. (2014). Como criar uma mente: os segredos do pensamento humano. São Paulo: Aleph.

Lacan, J. (1992). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. (Seminário original de 1969-1970)

Lacan, J. (1998). A ciência e a verdade. In Lacan, J. [Autor], Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (2005). O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (2008). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. (Seminário original de 1964)

Lacan, J. (2010). O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. São Paulo: Zahar. (Seminário original de 1954-1955)

Lebrun, J.-P. (2004). Um mundo sem limites. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Lemos, P. d. (2016). Amplificação do discurso do capitalista no sujeito e nos laços sociais digitais. Psicanálise & Barroco em revista, 14(1), 1-21.

Lima, N. L., & Generoso, C. M. (2016). "Impossível me separar do celular!" O uso adicto das tecnologias digitais. CIEN Digital.

Lipovetsky, G., & Serroy, J. (2011). A cultura-mundo. São Paulo: Companhia das Letras.

Martins, J. C. (2018). Ócio na contemporaneidade cansada. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, 35-44.

Miller, J.-A. (2011). Perspectivas dos escritos e outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.

Nobre, M. R., & Moreira, J. D. (2013). A fantasia no ciberespaço: a disponibilização de múltiplos roteiros virtuais para a subjetividade. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, 16(2), 283-298.

Pinheiro, R., & Carneiro, H. F. (2013). A fascinação pelo resto: o hiper mal-estar na tecnociência. Tempo Psicanalítico, 45(1), 419-438.

Rinaldi, D. (2011). Invenções contemporâneas: proximidade, ética e gozo. Dimensions de la psychanalyse. Trabalho não publicado.

Rosa, M. D. (2016). A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento. São Paulo: Escuta/Fapesp.

Rüdiger, F. (2016). As teorias da cibercultura: perspectivas, questões e autores (2ª ed.). Porto Alegre: Sulina.

Trivinho, E. (2014). A civilização glocal: repercussões social-históricas de uma invenção tecnocultural fundamental do capitalismo tardio. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, 10(19), 26-41.

Turkle, S. (2011). Alone together: why we expect more from technology and less from each other. New York: Basics Books.

Žižek, S. (2013). O amor impiedoso (ou: sobre a crença) (2ª ed.). Belo Horizonte: Autêntica.

Žižek, S., & Daly, G. (2006). Arriscar o impossível – conversas com Žižek. São Paulo: Martins.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.