O tempo e o objeto na psicanálise

Inês Maria Seabra de Abreu Rocha, Márcia Rosa

Resumo


Neste artigo, discutimos a noção de tempo a partir da construção do objeto em psicanálise. Percorremos os textos da literatura freudiana, onde encontramos uma tentativa de temporalização da experiência psicanalítica, trazendo a noção do a posteriori na qual Freud inscreve a experiência com o tempo na psicanálise. Na leitura de Lacan, o tempo será modalizado em três momentos lógicos e destaca-se o tempo inaugural de entrada na linguagem, condição primeira para a psicanálise. A investigação sobre o objeto será o vetor de orientação de nosso percurso sobre o tempo em uma psicanálise. Na elaboração freudiana, o inconsciente é atemporal e a satisfação buscada pela pulsão não cessará mesmo com as dificuldades encontradas na realidade. O objeto será a via da satisfação do sujeito e o ponto de ancoragem do seu desejo. Estará em jogo a constituição do sujeito a partir do narcisismo, do qual um primeiro tempo se inscreve no investimento da libido no próprio corpo, tomado como objeto, na própria imagem, uma alienação fundante que antecede a entrada do sujeito na linguagem. Freud nos fala do encontro do sujeito com o objeto; Lacan, por outro lado, nos mostra um percurso em que o objeto terá de ser, antes, construído. Nomeia o objeto a, uma construção lógica que diz do furo, do encontro com a falta do objeto. O objeto a é definido como um objeto não nomeável, um objeto presente-ausente, um objeto causa do desejo. Uma relação do sujeito com a falta do objeto se delineia e se inscreve durante o percurso de uma psicanálise.

Palavras-chave


inconsciente; objeto; psicanálise; sujeito; tempo.

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