Experiências de (des) continuidade e o vir a ser no abrigo: entre encontros e possibilidades

Poliana Omizzollo, Milena da Rosa Silva, Lizia Pereira da Rosa Taborda

Resumo


O presente trabalho apresenta um fragmento de um projeto maior, o qual abordou as possibilidades de vir a ser em uma instituição de acolhimento. Nos propusemos a realizar uma operação de leitura da relação estabelecida entre bebês (até 18 meses) que se encontram acolhidos em abrigos residenciais de Porto Alegre (RS - Brasil) e seus respectivos cuidadores. Para tanto, utilizamos os Indicadores Clínicos de Referência para o Desenvolvimento Infantil (IRDIs). Buscamos ainda, a partir de conceitos fundamentais da teoria de D. Winnicott, apoio para refletir acerca do que se mostrou em evidência, de modo que as concepções de ambiente e de (des)continuidade dos cuidados serviram como base nesta leitura e construção de significados, permitindo a emergência de alguns apontamentos: mesmo ressaltando o direito da continuidade dos cuidados que toda criança possui, a separação da mãe/família não necessariamente se faz, por si só, traumática. Compreendemos, portanto, que mesmo sendo portadores de uma marca primeira (privação da família originária), existe possibilidade de o bebê se desenvolver satisfatoriamente no contexto do acolhimento institucional desde que possa estabelecer um encontro com alguém/ambiente disponível para sustentá-lo, para proporcionar uma experiência de continuidade e para impedir que seu sofrimento inicial impossibilite seu vir a ser.


Palavras-chave


bebê; acolhimento institucional; IRDI; Winnicott; psicanálise

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