Leitores Advertidos: Desconstrução, Psicanálise e Leituras do Retorno a Freud

Ana Carolina do Rosário Correia, Hélida Vieira da Silva Xavier, Charles Elias Lang

Resumo


O objetivo deste artigo é apresentar uma discussão acerca das exigências metodológicas necessárias à pesquisa psicanalítica, em especial, quando esta toma textos psicanalíticos como objeto e fonte de pesquisa. Nesse sentido, esboçamos uma proposta de “leitura advertida”, ou seja, de leitores que tenham a consciência de que um texto é sempre a escrita de uma determinada leitura – uma leitura-escritura – e que toda leitura possui protocolos, sendo que esses protocolos são muitas vezes automáticos e, por isso, acabam ignorados pelo leitor. Iniciamos este percurso desenvolvendo alguns aspectos epistemológicos para uma leitura desconstrutiva, com base nos textos de Luís Cláudio Figueiredo e Jacques Derrida. Para fins demonstrativos, analisamos a suposição de um sentido de continuidade da psicanálise lacaniana em relação a Freud, como o efeito ou resultado de uma operação de leitura, mais especificamente, de uma leitura sobre o “retorno a Freud”. Para contrastar, uma outra leitura desse retorno, proposta pelos autores Alfredo Eidelsztein e Markos Zafiropoulos, destaca que Lacan introduz uma perspectiva epistemológica distinta da posição freudiana. Concluímos que Lacan, enquanto texto (e como qualquer texto), está aberto a inúmeras possibilidades de leitura. Essa outra maneira de ler causa uma ruptura na forma como Lacan é lido classicamente e inaugura uma outra leitura da psicanálise, a partir da herança do discurso freudo-lacaniano e de suas diferenças com esse outro Lacan.


Palavras-chave


Desconstrução; Jacques Lacan; Leitura; Psicanálise

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