Educação não é sinônimo de aprendizagem: uma interlocução Educação, Psicanálise e Filosofia

Kelly Cristina Brandão da Silva

Resumo


O presente trabalho, a partir da interface Educação e Psicanálise, em interlocução com alguns pressupostos filosóficos, sobretudo no que concerne às teorizações de Hannah Arendt e Gert Biesta, pretende discutir algumas hipóteses acerca da atual primazia da aprendizagem e do suposto protagonismo do aluno, com o consequente apagamento do lugar do professor e do ensino. Com o reducionismo do direito constitucional à educação em direito à aprendizagem, sob a influência de organizações internacionais, como a OCDE, marcadas por uma lógica neoliberal, algumas políticas públicas obedecem à lógica de eficiência do mundo empresarial. Com metas mensuráveis, focadas em resultados, a complexidade do fenômeno educativo se reduz à performance e ao desempenho. Nessa perspectiva, quaisquer percalços na empreitada educativa são entendidos como um problema de gestão. Entretanto, como uma tarefa eminentemente humana, a Educação convive, paradoxalmente, com a impossibilidade de sua realização, visto que nunca alcança a totalidade da sua intenção, sempre não-toda. A tensão estrutural relativa ao enigmático (des)encontro entre o novo e o instituído obriga a educação a lidar continuamente com o mal-estar. Defende-se que a educação é um bem comum que se efetiva em um campo eminentemente relacional e, portanto, tenso, imprevisível, artesanal, avesso a determinações generalistas e, seguindo a tradição freudiana, impossível.

Palavras-chave


direito à educação; aprendizagem; Psicanálise; Hannah Arendt; Gert Biesta.

Texto completo:

PDF

Referências


Arendt, H. (2005). A condição humana. Tradução: Roberto Raposo, posfácio de Celso Lafer. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Biesta, J. G. G. (2012). Boa educação na era da mensuração. Cadernos de Pesquisa, 42(147), 808-825.

Biesta, G. J. J. (2015). Beautiful risk of education. London: Routledge.

Biesta, G. J. J. (2016). Good education in an age of measurement: Ethics, Politics, Democracy. New York: Routledge.

Biesta, G., & Picoli, B. (2018). O dever de resistir: sobre escolas, professores e sociedade. Educação, 41(1), 21-29.

Brasil. (2012). Ministério da Educação. Elementos conceituais e metodológicos para definição dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento do ciclo de alfabetização (1o, 2o, 3o anos) do Ensino Fundamental. Brasília, MEC/SEB/DICEI/COEF.

Carneiro, S. R. G. (2019). Vivendo ou aprendendo... A “ideologia da aprendizagem” contra a vida escolar. In Cássio, F. (Org.), Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar (p. 41-45). São Paulo: Boitempo Editorial.

Carvalho, J. S. F. de (2013). Reflexões sobre educação, formação e esfera pública. Porto Alegre: Penso.

Duarte, C. S. (2007). A educação como um direito fundamental de natureza social. Educação & Sociedade, 28(100), 691-713.

Fermam, R. A., Silva, C. J. F. D. S., & Mendes, Â. C. P. (2019). Qualidade da educação e indicadores educacionais: o caso da Escola Municipal Júlia Cortines. In Anais do I Encontro Municipal de Avalição Educacional: Políticas Públicas, Participação e Resistência, 62-69. Niterói, RJ.

Freitas, L. C. (2014). Os empresários e a política educacional: como o proclamado direito à educação de qualidade é negado na prática pelos reformadores empresariais. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, 6(1), 48-59.

Freud, S. (1969). Prefácio a Juventude desorientada, de Aichhorn. Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1925)

Freud, S. (1969). Análise terminável e interminável. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XXIII. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1937)

Freud, S. (1976). Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. In Freud, S. [Autor], Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIII. Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1914)

Imbert, F. (2001). A questão da ética no campo educativo. Petrópolis/RJ: Vozes

Jaeger, W. (2001). A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes.

Jorge, M. A. C. (1988). Sexo e discurso em Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.

Lajonquiére, L. de. (2013). As palavras e as condições da educação escolar. Educação & Realidade, 38(2), 455-469.

Macedo, E. (2015). Base Nacional Comum para currículos: direitos de aprendizagem e desenvolvimento para quem? Educação & Sociedade, 36(133), 891-908.

Masschelein, J., & Simons, M. (2014). Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Autêntica.

Miller, J. L. (2014). Teorização do currículo como antídoto contra/na cultura da testagem. Revista e-Curriculum, 12(3), 2043-2063.

Mrech, L. de M., & Rahme, M. M. F. (2011). Psicanálise, educação e contemporaneidade: novas interfaces e dimensões do laço social. In Mrech, L. M., Pereira, M. R., & Rahme, M. (Orgs.). Psicanálise, Educação e Diversidade, p. 13-26. Belo Horizonte, MG: Fino Traço/FAPEMIG.

Oliveira, D. A. (2004). A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educação & Sociedade, 25(89), 1127-1144.

Silva, K. C. B. da. (2016). Educação inclusiva: para todos ou para cada um? Alguns paradoxos (in)convenientes. São Paulo: FAPESP/Escuta.

Silva, M. A. da., & Fernandes, E. F. (2019). O projeto educação 2030 da OCDE: uma bússola para a aprendizagem. Revista Exitus, 9(5), 271-300.

Skliar, C. (2003). Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Rio de Janeiro: DP&A.

Voltolini, R. (2001). Do contrato pedagógico ao ato analítico: contribuições à discussão da questão do mal-estar na educação. Estilos da Clínica, 6(10), 101-111.

Voltolini, R. (2006). Educação como “fato inconveniente” para a psicanálise. Anais do 6º Colóquio do LEPSI – Psicanálise, Educação e Transmissão, 6, São Paulo.

Voltolini, R. (2007). A relação professor-aluno não existe: corpo e imagem, presença e distância. ETD-Educação Temática Digital, 8, 119-139.

Voltolini, R. (2011). Educação e Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Voltolini, R. (2019). Uma pedagogia esquecida do amor. ETD-Educação Temática Digital, 21(2), 363-381.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.