O sujeito na ciência, na literatura fantástica e na psicanálise
Palavras-chave:
Ciência, psicanálise, literatura fantástica, sujeito, discurso da histeria.Resumo
Este trabalho discute a relação entre ciência moderna, literatura fantástica e psicanálise, tomando a primeira como pré-condição para a existência das duas últimas. Questionam-se quais elementos históricos e epistêmicos herdados da ciência se fazem presentes tanto na literatura fantástica como na psicanálise para, em seguida, situar a especificidade de cada uma delas. Adotam-se como categorias de análise as concepções lacanianas de sujeito e de discurso, estabelecendo uma conexão entre o procedimento científico e o discurso da histeria. Destacam-se as idiossincrasias da literatura fantástica, que é situada em relação a outros gêneros ou modalidades literárias, conforme a definição de Todorov, a saber: o estranho e o mágico. Para melhor mapear os limites desse território, buscam-se comparar a psicanálise e a literatura fantástica com a religião e a magia. Debate-se daí a tese de Todorov, que vaticina o desaparecimento do fantástico na segunda metade do século XX em decorrência da influência da psicanálise, que o teria tornado supérfluo. Diferentemente desse autor, defende-se que um dos principais obstáculos para o desenvolvimento da literatura fantástica na atualidade não é a concorrência da psicanálise, mas a presença de uma visão de mundo cientificista atrelada ao discurso capitalista. Nesse sentido, propõe-se que tanto a psicanálise como a literatura fantástica constituem formas de propiciar a expressão do sujeito, que se encontra elidida no cientificismo. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, bibliográfica, conceitual, de caráter ensaístico, que se fundamenta na contribuição de psicanalistas e críticos literários, além de epistemólogos e historiadores da ciência, cujo intuito é interrogar o lugar, a pertinência e os desafios da psicanálise na atualidade, tomando como foco a sua relação com a ciência e a literatura fantástica.
Referências
Assis, Machado de. (1998) O alienista. Porto Alegre: LP&M. (Original publicado em 1882)
Baas, B. & Zaloszyc, A. (1996) Descartes e os fundadamentos da psicanálise. Rio de Janeiro: Revinter.
Badiou, A. Para uma nova teoria do Sujeito: conferências brasileiras. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
Bessière, I. El relato fantástico: forma mixta de caso y adivinanza. In D. ROAS (org.). Teorias de lo Fantástico (p. 83-104).. Madrid: Arco/Libros, 2001.
Biazin, R. dos R., & Kessler, C. H. (2017). Psicanálise e Ciência: a equação dos Sujeitos. Psicologia USP, 28(3), 414–423. DOI: 10.1590/0103-656420160184
Borges, J. L.; Ocampo, S. & Casares, A. B. (Orgs.). (2013) Antologia da Literatura Fantástica. São Paulo, SP: Cosac Naify.
Costa, F. M. (Org). (2016) Os melhores contos fantásticos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira.
Devereux, C. (1976) Dreams in greek tragedy: An Ethno-PSycho-Analytical Study. Berkley: University of California press.
Dunker, C. I. L. (2008). Descartes e o Método Psicanalítico. Estudos Lacanianos, 1(1), 169–186.
Erlich, H., & Alberti, S. (2008). O Sujeito entre Psicanálise e Ciência. Psicol. Rev., 14(2), 47–63. Acesso de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-11682008000200004 em 20 de fev. 2020.
Fink, B. (1997) Psicanálise e Ciência. In R. Feldstein, B, Fink & M. Jaanus (Org.), Para ler o seminário 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Foucault, M. (2000). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo, SP: Martins Fontes.
Franco, S. de G. (2012). “Dilthey: Compreensão e explicação” e possíveis implicações para o método clínico. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 15(1), 14–26. DOI: 10.1590/S1415-47142012000100002
Freud, S. (1997a). Psychische Behandlung (Seelenbehandlung). In S. Freud, Studienausgabe (Vol. Ergänzungsband, p. 13-36). Frankfurt a. M.: S. Fischer. (Original publicado em 1890)
Freud, S. (1997b). Der Familienroman der Neurotiker. In S. Freud, Studienausgabe. Vol. IV (p. 221-226). Frankfurt a. M.: S. Fischer, 1997. (Original publicado em 1908)
Freud, S. (1997c) Triebe und Triebschicksale. In S. Freud, Studienausgabe. Vol. III (p. 75-102). Frankfurt a. M.: S. Fischer. (Original publicado em 1915)
Freud, S. (1997d) Die Verdrängung. In S. Freud, Studienausgabe. Vol. III, (p. 75-102). Frankfurt a. M.: S. Fischer. (Original publicado em 1915)
Freud, S. (1997e). Bemerkungen über die Übertragungsliebe (Weitere Rätschlage zur Technik der Psychoanlyse III). In S. Freud, Studienausgabe Vol. Ergänzungsband (p. 217-230). Frankfurt a. M.: Fischer Taschenbuch Verlag. (Original publicado em 1915)
Freud, S. (1997f) Das Unheimliche. In S. Freud, Studienausgabe. Vol. IV, (p. 241-274). Frankfurt a. M.: S. Fischer. (Original publicado em 1915)
Freud, S. (1997g) Neue folge der Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse – 35. Vorlesung: Über eine Weltanschauung. In S. Freud, Studienausgabe. Vol. II (p. 586-608). Frankfurt a. M.: S. Fischer. (Original publicado em1933)
Freud, S. (1999). Eine Schwierigkeit der Psychoanalyse. In S. Freud, Gesammelte Werke. Vol. XII (p. 3-12). Frankfurt a. M.: Fischer Verlag. (Original publicado em1917)
García, F. (2009) Um duplo e insólito Teófilo Braga. In F. García & M. A. Motta. O insólito e seu duplo (p. 141-155). Rio de Janeiro: EDUERJ.
Gautier, T. (1999) A morte apaixonada. In T. Gautier, Contos Fantásticos (p. 59-92). São Paulo: Primeira Linha ed.
Hoffmann, E.T.A. (2016) Der Magnetiseur. In E. T. A. Hoffmann, Das Gesammelte Werke (p. 35-76). Colonia: Anaconda, 2016. (Originalmente publicado em 1817)
Kon, N. M. (2006) Literatura Fantástica e Psicanálise. In D. Calderoni (Org.), Psicopatologia: Clínicas de Hoje (pp. 121-145). São Paulo, SP: Via Lettera.
Koyré, A. (1982). Estudos de história do Pensamento Científico. Brasília: Ed. Universidade de Brasília.
Koyré, A. (2006) Do mundo fechado ao universo infinito. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária.
Kuhn, T. (1996) A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva.
Lacan, J. (1992) Seminário, livro 17: O avesso da Psicanálise (1967-68). Jorge Zahar Ed.: Rio de Janeiro.
Lacan, J. (1998a) O seminário, livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Lacan, J. (1998b). Do Sujeito enfim em questão. In J. Lacan, Escritos (p. 229-236). Jorge Zahar Ed.: Rio de Janeiro. (Originalmente publicado em 1966).
Lacan, J. (1998c). A ciência e a verdade. In J. Lacan, Escritos (p. 869-892). Jorge Zahar Ed.: Rio de Janeiro. (Originalmente publicado em 1966).
Lacan, J. (1985) O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Loureiro, I. R. B. (2002). O carvalho e o pinheiro: Freud e o estilo romântico. São Paulo, SP: Escuta.
Manna, N. (2014a) A chave azul: ação do leitor em textos fantásticos. Galáxia, 14(27), 214-226.
Manna, N. (2014b) A tessitura do fantástico: narrativa, saber moderno e crises do homem sério. São Paulo: Intermeios.
Maupassant, G. (2015a) O Horla (primeira versão). In G. Maupassant. Contos fantásticos: o Horla e outras histórias (p. 72-83). Porto Alegre: LP&M.
Maupassant, G. (2015b) Carta de um louco. In G. Maupassant. Contos fantásticos: o Horla e outras histórias (p. 54-62). Porto Alegre: LP&M.
Maupassant, G. (2015c) Magnetismo. In G. Maupassant. Contos fantásticos: o Horla e outras histórias (p. 21-26). Porto Alegre: LP&M.
Mezan, R. (2014) O tronco e os ramos: estudos de história da Psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.
Pacheco, O. M. C. de A. Sujeito e singularidade: ensaio sobre a construção da diferença. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1996.
Poe, E. A. (2006a) The purloined letter. In E. A. Poe, The complete ilustrated Works of Edgard Allan Poe. (p. 319-333). Londres: Bounty Books.
Poe, E. A. (2006b) Mesmeric Revelation. In E. A. Poe, The complete ilustrated Works of Edgard Allan Poe. (p. 587-594). Londres: Bounty Books.
Poe, E. A. (2006c) The facts in the case of M. Valdemar. In E. A. Poe, The complete ilustrated Works of Edgard Allan Poe. (p. 201-210). Londres: Bounty Books.
Pollo, V. (2004) Exílio e retorno do corpo: Descartes e a Psicanálise. In: S. Alberti & A. C. Ribeiro (org), Retorno do exílio: o corpo entre a Psicanálise e a Ciência (p. 15-28). Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria.
Prudente, R. C. A. C., & Ribeiro, M. A. C. (2005). Psicanálise e Ciência. Cienc. Prof., 25(1), 58–69. Acesso de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932005000100006 em 20 de fev. 2020.
Rabêlo, F. C.; Martins, K. P. H. & Danziato, L. J. B. Fantástico e Psicanálise: relações históricas e discursivas. Acta Scientiarum. Language and Culture, 41(1), p. e43128, 5 abr. 2019. Acesso de http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciLangCult/article/view/43128 em 20 fev. 2020.
Ramos, M., & Alberti, S. (2013). Psicanálise e Ciência : a emergência de um Sujeito sem qualidades. Psicanálise & Barroco Em Revista, 11(2), 210–224.
Recalcati, M. (2006) Las tres estéticas de Lacan. In M. Recalcati. Las tres estéticas de Lacan: arte y psicanálisis (p. 9-36). Buenos Aires: Del crifrado, 2006.
Ricouer, P. (1977) Da Interpretação: ensaio sobre Freud. Imago, Rio de Janeiro.
Rodrigues, S. C. O Fantástico. São Paulo: Ed. Ática.
Roudinesco, E. (1999) Por quê a Psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Simanke, R. (2009). A Psicanálise freudiana e a dualidade entre Ciências naturais e Ciências humanas. Scientiae Studia, 7(2), 221–235. DOI: 10.1590/S1678-31662009000200004
Todorov, T.(2012) Introdução à literatura fantástica. São Paulo, SP: Perspectiva, 2012.