Expressões contemporâneas do mal-estar na universidade: temporalidade e escritas da experiência

Autores

Palavras-chave:

Psicanálise. Mal-estar. Universidade. Temporalidade. Escritas da experiência.

Resumo

O presente ensaio parte de uma pesquisa construída a partir de inquietações referentes ao sofrimento psíquico no contexto universitário, produzidas a partir da experiência de escuta da pesquisadora enquanto psicóloga em instituições da rede federal de ensino. Foi tecida no desejo de construir, a partir da escuta-flânerie, espaços-tempo de reflexão sobre as expressões contemporâneas do mal-estar na universidade. Em sua especificidade, objetivou problematizar a dimensão sociopolítica do sofrimento, suas expressões e formas de reconhecimento no território universitário; bem como refletir sobre os fenômenos sociais do nosso tempo, os processos de subjetivação e as estratégias de inscrição no laço social na contemporaneidade. A abordagem metodológica define-se por uma pesquisa em psicanálise. O delineamento desse método sustenta-se na proposta ético-metodológica tecida por Gurski (2008; 2012; 2014; 2019), na qual se articulam o referencial e a escuta psicanalítica com as construções dos escritos de Benjamin sobre o tema da experiência e a posição do flanêur em Baudelaire. Os participantes da pesquisa - técnicos, docentes e discentes ligados às atividades e projetos em Psicologia Clínica e Escolar Educacional na universidade - construíram escritas da experiência. Também foram incluídos nesse estudo alguns fragmentos discursivos de expressões midiáticas em reportagens atuais de sites de notícias na internet, recolhidos como restos do discurso social acerca do tema. A problematização quanto aos efeitos dos discursos que organizam o laço social nas vivências universitárias encontrou tensionamentos sobre nossos modos de ser e de viver, modos de produção e de circulação dos afetos. O desamparo, a velocidade, a estagnação, a sobrevivência, o esgotamento, a indiferença, o silenciamento. Precipitados da experiência que decantam de narrativas diversas, significantes que constituem formas de nomear o mal-estar, de fazer registro e inscrição do que inquieta, do que produz sofrimento, nos limiares da escrita. Passagens constitutivas de experiências e de subjetividades.

Biografia do Autor

Gabriela Oliveira Guerra, Universidade Federal de Santa Maria/RS

Psicóloga na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS), lotada no Curso de Psicologia, na Clínica de Estudos e Intervenções em Psicologia - CEIP/UFSM. Mestranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFSM, vinculada a linha de pesquisa Problemáticas de Saúde e contextos institucionais. Especialista em Atendimento clínico: Abordagem Psicanalítica pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA/SM. Possui experiência na área de Psicologia Clínica, Social e Comunitária e Intervenção em grupos, com atuação em serviços de saúde, educação e assistência social. Atualmente desenvolve pesquisas junto ao Grupo de Pesquisa ?Psicanálise e Políticas do Contemporâneo? e no Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Psicologia e Educação (GEPEPE), ambos do PPGP/UFSM. Também integra o grupo de pesquisa Direitos Humanos e Mobilidade Humana Internacional, na linha de pesquisa Psicanálise e Migrações: efeitos clínicos e políticos dos deslocamentos do MIGRAIDH/UFSM.

Taís Fim Alberti, Universidade Federal de Santa Maria: Santa Maria, RS, BR

Graduação em Psicologia pelo Curso de Psicologia, da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (2003). Mestre em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação/PPGE(2006), da Universidade Federal de Santa Maria/UFSM. Doutora em Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação/PPGEDU(2011), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS. Atualmente é Docente Associada I do Departamento de Psicologia, do Centro de Ciências Sociais e Humanas/CCSH/UFSM. Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (Mestrado e Doutorado)e do programa de Mestrado Profissional em Tecnologias Educacionais em Rede (PPGTER), do Centro de Educação/UFSM. Líder do Grupo de Pesquisa do CNPq: Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Psicologia e Educação (GEPEPE/CCSH/UFSM). Vice-Líder do Grupo de Pesquisa do CNPq: Grupo de Estudos e Pesquisas em Tecnologias Educacionais em Rede (GEPETER/CE/UFSM). Atua nas linhas de pesquisa: 1) Problemáticas de Saúde e contextos Institucionais nos seguintes temas: Psicologia Escolar e Educacional; Psicologia histórico-cultural; Psicologia, educação e tecnologias; Psicologia e Políticas públicas educacionais; 2)Gestão de Tecnologias Educacionais em Rede nos seguintes temas: processos de ensino-aprendizagem mediados por tecnologias; atividades de estudo desenvolvimentais; educação a distância; ambientes virtuais de ensino-aprendizagem; educação dialógico-problematizadora; psicologia, escola e tecnologias. 

Camilla Baldicera Biazus, Universidade do Alto Uruguai e das Missões Campus Santiago: Santiago, RS, BR

Possui graduação em Psicologia pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA-2009), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS e Doutorado em Linguística pela UFSM. Atualmente realiza pós-doutorado (PNPD - CAPES) no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM. É docente no Curso de Psicologia da URI - Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, nas disciplinas de Psicodiagnóstico, Introdução às Ciências Psicológicas, Psicologia da Infância, Psicologia da Adolescência e Idade Adulta, Clínica Psicanalítica da Infância e da Adolescência, Processos Clínicos e Psicologia Escolar e Educacional. Nesta instituição, também atua na supervisão de estágios e na coordenação dos projetos "Grupoterapia psicanalítica para crianças", "Grupo de estudos sobre o pensamento de Donald Winnicott" e o projeto de extensão "Ser e Criar: Grupo de Estratégias Criativas em Educação". Tem experiência na área de Psicologia Clínica, mantendo interesse nos seguintes temas: psicanálise winnicottiana, arte e corpo, clínica da infância e da adolescência, a escrita enquanto processo de subjetivação e Análise de Discurso. 

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Publicado

2022-01-14

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Artigos