A escrita da clínica e a preparação do romance: ressonâncias dos restos na formação de analistas
DOI:
https://doi.org/10.71101/rtp.58.885Resumo
O presente artigo discute a escrita da clínica psicanalítica como elemento central na formação do analista, propondo a metáfora do “catar restos” – inspirada na obra de Agnès Varda – para descrever o recolhimento dos traços discursivos que emergem no só-depois das sessões. A partir das noções de “material reservado” e das formas breves de anotação, o texto estabelece um diálogo interdisciplinar entre a psicanálise e as reflexões de Roland Barthes sobre a “preparação do romance”. Sustenta-se que essas escritas fragmentárias, embora despretensiosas e frequentemente não destinadas à publicação, configuram um campo de prática ética e estética. O estudo articula essa produção textual ao conceito de Bildungsroman (Romance de Formação), deslocando a formação do analista de um ideal burocrático para um processo de cultivo contínuo e subjetivante. Conclui-se que a escrita da clínica, ao operar sobre os restos da transferência e as lacunas da memória, constitui uma ferramenta indispensável para a elaboração e a inscrição do sujeito na posição de analista.
Palavras-chave: escrita da clínica, formação do analista, tempo psicanalítico, anotação, transferência
