Misoginia, não-todo e violência: o apagamento da escrita psíquica do feminino como defesa fálica
DOI:
https://doi.org/10.71101/rtp.58.976Palavras-chave:
misoginia, feminino, não-todo, violência, psicanáliseResumo
Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da misoginia como operação defensiva diante do não-todo feminino. Parte-se do reconhecimento de que a violência dirigida contra mulheres e corpos feminizados deve ser compreendida em sua dimensão histórica, política e social, sem, contudo, prescindir da investigação sobre sua economia subjetiva. A hipótese sustentada é a de que a misoginia opera como tentativa de restauração da consistência fálica diante daquilo que, no feminino, evidencia a impossibilidade de totalização do gozo, do corpo, do desejo e da linguagem. Para desenvolver essa hipótese, o artigo articula Freud e Lacan a autoras que pensam a violência de gênero, o ódio às mulheres e a crítica feminista ao patriarcado, com especial atenção à incidência simbólica e material do apagamento do feminino. Retoma-se, ainda, a noção de escrita psíquica do feminino como operador teórico-clínico, compreendida como experiência de borda, furo, resto e variação, resistente à lógica fálica da representação plena. Nesse percurso, a misoginia é pensada não apenas como ódio dirigido à mulher empírica, mas como defesa contra aquilo que, no feminino, não se deixa reduzir à posse, ao controle, à domesticação ou à norma. Defende-se que o apagamento misógino opera por silenciamento, objetificação, patologização, desautorização e destruição, mas jamais se completa integralmente, pois aquilo que se tenta recobrir retorna como resto, sintoma, memória, intensidade e escrita. Conclui-se que a violência misógina tenta fazer existir o todo justamente diante daquilo que, no feminino, demonstra sua impossibilidade.
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