Misoginia, não-todo e violência: o apagamento da escrita psíquica do feminino como defesa fálica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.71101/rtp.58.976

Palavras-chave:

misoginia, feminino, não-todo, violência, psicanálise

Resumo

Este artigo propõe uma leitura psicanalítica da misoginia como operação defensiva diante do não-todo feminino. Parte-se do reconhecimento de que a violência dirigida contra mulheres e corpos feminizados deve ser compreendida em sua dimensão histórica, política e social, sem, contudo, prescindir da investigação sobre sua economia subjetiva. A hipótese sustentada é a de que a misoginia opera como tentativa de restauração da consistência fálica diante daquilo que, no feminino, evidencia a impossibilidade de totalização do gozo, do corpo, do desejo e da linguagem. Para desenvolver essa hipótese, o artigo articula Freud e Lacan a autoras que pensam a violência de gênero, o ódio às mulheres e a crítica feminista ao patriarcado, com especial atenção à incidência simbólica e material do apagamento do feminino. Retoma-se, ainda, a noção de escrita psíquica do feminino como operador teórico-clínico, compreendida como experiência de borda, furo, resto e variação, resistente à lógica fálica da representação plena. Nesse percurso, a misoginia é pensada não apenas como ódio dirigido à mulher empírica, mas como defesa contra aquilo que, no feminino, não se deixa reduzir à posse, ao controle, à domesticação ou à norma. Defende-se que o apagamento misógino opera por silenciamento, objetificação, patologização, desautorização e destruição, mas jamais se completa integralmente, pois aquilo que se tenta recobrir retorna como resto, sintoma, memória, intensidade e escrita. Conclui-se que a violência misógina tenta fazer existir o todo justamente diante daquilo que, no feminino, demonstra sua impossibilidade.

Biografia do Autor

Elizabeth Fátima Teodoro, Universidade Federal São João del Rei, UFSJ, Brasil.

Elizabeth Fátima Teodoro é doutora e mestre em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), onde atua como professora substituta, incluindo atividades de estágio clínico supervisionado. Sua trajetória articula ensino, pesquisa e extensão em Psicologia Clínica e Psicanálise, com estudos fundamentados principalmente em Freud, Lacan e autores contemporâneos da psicanálise. Desenvolve pesquisas sobre feminino, escrita e literatura, sexualidade, psicopatologia e formas contemporâneas de sofrimento. Realiza o pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSJ, na linha Fundamentos Teóricos e Filosóficos da Psicologia. Na docência, atua também em metodologia de pesquisa, fundamentos epistemológicos da Psicologia e práticas de integração de conhecimentos.

Wilson Camilo Chaves, Universidade Federal São João del Rei, UFSJ, Brasil.

Professor Titular (Aposentado) do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei. Iniciou seus estudos em Filosofia no Instituto de Filosofia do Mosteiro de São Bento, São Paulo, em 1983. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia Ciências e Letras de Lorena - SP, em 1987. Graduou-se em Psicologia (Licenciatura, Bacharelado e Formação de Psicólogo) pela Universidade José do Rosário Vellano - UNIFENAS (Campus Alfenas - MG), em 1992, onde também exerceu atividades de docência, no período de março de 1988 a junho de 2002. Mestre em Filosofia e Metodologia das Ciências pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar (1999) e Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar (2006). . Atua no Programa de Pós-Graduação (Mestrado/Doutorado) em Psicologia -PPGPSI/UFSJ, na linha de Pesquisa 1 ''Fundamentos Teóricos e Filosóficos da Psicologia''. Desenvolveu pesquisas sobre os aspectos éticos e epistemológicos da psicanálise em correlação com a psicologia e a filosofia. Foi coordenador do curso de Psicologia por três mandatos (2003-2004; 2009-2011; 2011-2013). Foi membro do Conselho Acadêmico/Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão por dois mandatos (2003-2004; 2012-2014). Foi membro do Conselho Universitário por dois mandatos (2015-2017; 2017-2019). Foi presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de São João del Rei - ADUFS-SSIND por um mandato (2017-2019). Foi membro do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicanálise - NUPEP do Departamento de Psicologia. Autor dos livros: ''A determinação do sujeito em Lacan: da reintrodução na psiquiatria à subversão do sujeito'' pela EdUFSCar, 2005; ''A paixão pelo impossível: preâmbulos do conceito de real no ensino de Jacques Lacan pela Dialética, 2021, bem como de artigos publicados em revistas e periódicos nacionais e internacionais. É membro dos Grupos de Trabalho Filosofia e Psicanálise e Filosofia da Religião da ANPOF. Áreas de atuação: Filosofia, Psicologia (Teoria Psicanalítica). (Texto informado pelo autor)

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Publicado

21-10-2026

Como Citar

Fátima Teodoro, E., & Camilo Chaves, W. (2026). Misoginia, não-todo e violência: o apagamento da escrita psíquica do feminino como defesa fálica. Revista Tempo Psicanalítico, 58, e-976. https://doi.org/10.71101/rtp.58.976

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